Ansiedade Infantil: Sinais nas Crianças e Como Ajudar
A ansiedade não é exclusiva dos adultos. As crianças também sentem medo, preocupação e insegurança — e, em muitas situações, essas emoções fazem parte do desenvolvimento normal.Começar a escola, separar-se dos pais, enfrentar uma situação nova ou falar em frente à turma são exemplos de situações que podem despertar ansiedade.O mais importante é perceber a intensidade, a duração e o impacto dessas preocupações.Quando a ansiedade se torna muito frequente, intensa ou começa a interferir com a escola, as relações, o sono ou outras atividades do dia a dia, pode ser importante procurar compreender melhor aquilo que está a acontecer.Na PsicoMaia, procuramos ajudar crianças e famílias a reconhecer estas dificuldades e a desenvolver formas mais saudáveis de lidar com elas.
O que é a ansiedade nas crianças?
A ansiedade é uma resposta natural perante situações que são percebidas como ameaçadoras, incertas ou desafiantes.
Sentir alguma ansiedade não significa necessariamente que exista um problema psicológico.
Ao longo do desenvolvimento, é comum surgirem diferentes medos e preocupações. Por exemplo, algumas crianças pequenas podem sentir ansiedade quando se afastam dos pais, enquanto crianças mais velhas podem preocupar-se mais com a escola, o desempenho ou situações sociais. [1,2]
Em determinadas situações, a ansiedade pode até ser útil: pode levar a criança a preparar-se melhor para uma tarefa, procurar segurança perante um perigo ou prestar maior atenção ao que está a acontecer.
O problema surge quando o medo ou a preocupação se tornam desproporcionais, difíceis de controlar ou começam a limitar significativamente a vida da criança.
Como se manifesta a ansiedade infantil?
As crianças nem sempre conseguem dizer:
“Estou ansioso/a.”
Dependendo da idade, podem ter dificuldade em identificar ou explicar aquilo que estão a sentir.
Por isso, a ansiedade pode aparecer através de emoções, comportamentos ou queixas físicas.
Sinais emocionais
Uma criança ansiosa pode apresentar:
- preocupação frequente;
- medos intensos;
- irritabilidade;
- choro mais frequente;
- pensamentos negativos;
- necessidade constante de confirmação de que tudo ficará bem;
- receio de cometer erros.
Por vezes, a criança parece perguntar repetidamente:
“Tens a certeza de que vai correr bem?”
Mesmo depois de receber uma resposta tranquilizadora.
Sinais comportamentais
A ansiedade também pode levar a criança a evitar determinadas situações.
Pode, por exemplo:
- não querer ir à escola;
- evitar festas ou situações sociais;
- ter dificuldade em separar-se dos pais ou cuidadores;
- evitar dormir sozinha;
- desistir de atividades por medo de falhar;
- procurar permanecer constantemente perto de um adulto;
- resistir a situações novas.
Nem todo o evitamento significa ansiedade. É importante perceber o contexto e aquilo que motiva o comportamento.
Sinais físicos
As emoções também podem ser sentidas no corpo.
Algumas crianças com ansiedade podem queixar-se de:
- dores de barriga;
- dores de cabeça;
- sensação de enjoo;
- tensão;
- dificuldade em dormir;
- pesadelos;
- cansaço;
- alterações do apetite;
- necessidade frequente de ir à casa de banho.
O SNS identifica queixas como dores de barriga, dores de cabeça, dificuldades de sono, irritabilidade e preocupação persistente entre os possíveis sinais de ansiedade em crianças. [2]
No entanto, sintomas físicos podem ter muitas causas.
Queixas persistentes ou preocupantes devem ser avaliadas adequadamente e não devem ser automaticamente atribuídas à ansiedade.
Porque pode uma criança sentir ansiedade?
Não existe uma única causa.
A ansiedade pode resultar da interação de diferentes fatores, incluindo características individuais, experiências, ambiente familiar e social e acontecimentos de vida.
Algumas crianças podem sentir maior ansiedade perante:
- mudanças de escola ou de casa;
- separação dos pais;
- dificuldades académicas;
- conflitos familiares;
- problemas com amigos;
- bullying;
- doença;
- acontecimentos assustadores ou traumáticos;
- situações sociais;
- pressão relacionada com desempenho.
Algumas crianças também parecem ser naturalmente mais cautelosas ou sensíveis à incerteza do que outras.
Por isso, compreender aquilo que está por trás da ansiedade é mais útil do que simplesmente tentar fazer com que a criança “deixe de ter medo”.
Quando é importante estar atento?
Não é necessário procurar ajuda profissional sempre que uma criança demonstra medo ou preocupação.
Pode, no entanto, ser importante procurar orientação quando a ansiedade:
- é muito intensa;
- persiste durante um período significativo;
- parece estar a aumentar;
- causa sofrimento considerável;
- interfere com a frequência escolar;
- dificulta amizades ou outras relações;
- impede a participação em atividades adequadas à idade;
- interfere significativamente com o sono ou com a rotina;
- leva a criança a evitar cada vez mais situações.
Mais do que um sintoma isolado, importa observar a frequência, intensidade, duração e impacto no quotidiano.
Como ajudar uma criança com ansiedade?
Os pais e cuidadores podem desempenhar um papel muito importante.
O objetivo não é eliminar todas as situações que causam ansiedade, mas ajudar a criança a compreender aquilo que sente e, progressivamente, desenvolver confiança para lidar com situações difíceis.
1. Ouvir e validar aquilo que a criança sente
Quando uma criança diz que tem medo, frases como:
“Isso não é nada.”
“Não tens razão nenhuma para ter medo.”
ou
“Já és grande para isso.”
podem fazê-la sentir que aquilo que sente não é compreendido.
Pode ser mais útil dizer:
“Percebo que isso te esteja a deixar preocupado/a.”
Validar a emoção não significa confirmar que existe realmente um perigo.
É possível reconhecer o medo e, ao mesmo tempo, ajudar a criança a perceber que consegue lidar com a situação.
2. Ajudar a criança a dar nome às emoções
Especialmente nas crianças mais pequenas, pode ser difícil distinguir ansiedade de outras sensações.
Pode ajudar perguntar:
“O que sentes no corpo quando estás preocupado/a?”
“Onde sentes o medo?”
“O que achas que pode acontecer?”
Aprender a identificar emoções e sensações pode tornar mais fácil falar sobre aquilo que está a acontecer.
3. Explicar a ansiedade de forma simples
A ansiedade pode ser explicada como uma espécie de “alarme” do corpo.
Esse alarme é importante quando existe perigo, mas, por vezes, pode ativar-se perante uma situação que é desconfortável ou desconhecida, mesmo quando não existe um perigo real.
Uma explicação adaptada à idade pode ajudar a criança a compreender que sentir ansiedade não significa necessariamente que algo mau vai acontecer.
4. Manter rotinas previsíveis
As crianças tendem a beneficiar de alguma previsibilidade.
Horários relativamente consistentes para sono, refeições, escola e atividades podem ajudar a criar uma sensação de estabilidade.
Quando vai acontecer uma mudança, explicar antecipadamente aquilo que a criança pode esperar também pode ser útil.
5. Ensinar estratégias para momentos de ansiedade
Dependendo da idade, pode ajudar a criança a experimentar estratégias simples, como:
- respirar lentamente;
- fazer uma pequena pausa;
- falar sobre aquilo que está a pensar;
- identificar coisas que consegue ver, ouvir ou tocar naquele momento;
- recorrer a uma atividade tranquila;
- dividir uma situação difícil em pequenos passos.
Estas estratégias não precisam de ter como objetivo fazer a ansiedade desaparecer imediatamente.
Podem simplesmente ajudar a criança a permanecer na situação enquanto a emoção diminui gradualmente.
6. Ter cuidado com o evitamento
Quando uma criança tem medo de alguma coisa, a reação natural dos pais pode ser protegê-la completamente daquela situação.
Em alguns casos, isso é necessário — sobretudo quando existe um risco real.
Mas, quando a situação é segura e adequada à idade, evitar sistematicamente tudo aquilo que provoca ansiedade pode tornar mais difícil aprender que aquela situação é possível de enfrentar.
Por exemplo, se uma criança sente ansiedade ao falar com outras crianças, obrigá-la subitamente a participar numa grande festa provavelmente não será útil.
Mas também poderá não ajudar eliminar completamente todas as situações sociais.
Uma abordagem mais equilibrada poderá consistir em dar pequenos passos graduais, adaptados à criança.
Na terapia cognitivo-comportamental utilizada para alguns problemas de ansiedade infantil, a aproximação gradual às situações temidas é uma das estratégias utilizadas para ajudar crianças e jovens a desenvolver maior confiança. [3]
7. Reconhecer o esforço, não apenas o resultado
Quando a criança enfrenta uma situação que lhe provoca ansiedade, pode ser útil reconhecer aquilo que tentou.
Por exemplo:
“Percebi que estavas nervoso/a e, mesmo assim, conseguiste entrar na sala.”
Isto ajuda a valorizar coragem e esforço, mesmo que a criança ainda tenha sentido ansiedade.
O objetivo não é ensinar:
“Só conseguiste se não sentiste medo.”
Mas sim:
“Conseguiste fazer algo difícil mesmo sentindo algum medo.”
8. Manter a calma enquanto adulto
É natural que os pais também fiquem preocupados quando veem um filho ansioso.
No entanto, a criança observa a reação dos adultos para perceber como interpretar uma situação.
Transmitir segurança não significa fingir que está tudo bem.
Significa tentar responder de forma calma e previsível:
“Eu sei que isto está a ser difícil. Vamos perceber juntos qual pode ser o próximo passo.”
O que não fazer?
Não existem respostas perfeitas, e todos os pais podem reagir de formas diferentes em momentos de preocupação.
Ainda assim, geralmente é preferível evitar:
- ridicularizar os medos da criança;
- comparar com irmãos ou colegas;
- dizer constantemente “não tenhas medo”;
- obrigar abruptamente a enfrentar situações muito assustadoras;
- eliminar automaticamente todas as situações que provocam ansiedade;
- transformar todas as preocupações em longas conversas de tranquilização repetida.
Encontrar o equilíbrio entre oferecer segurança e incentivar autonomia pode ser um processo gradual.
Quando procurar apoio psicológico?
Pode fazer sentido procurar um psicólogo quando a ansiedade provoca sofrimento significativo ou começa a limitar a vida da criança.
A AACAP recomenda considerar uma avaliação profissional quando os medos e a ansiedade interferem de forma significativa com atividades habituais, como separar-se dos pais, frequentar a escola ou fazer amigos. [1]
O acompanhamento psicológico poderá ajudar a:
- compreender melhor aquilo que desencadeia a ansiedade;
- identificar pensamentos, emoções e comportamentos associados;
- desenvolver estratégias adequadas à idade;
- ajudar a criança a aproximar-se gradualmente de situações que evita;
- trabalhar competências emocionais;
- orientar pais e cuidadores sobre formas de apoio.
A participação dos pais ou cuidadores pode ter um papel importante no acompanhamento, particularmente nas crianças mais novas. [1]
Existem tratamentos psicológicos eficazes para problemas de ansiedade na infância. A terapia cognitivo-comportamental, por exemplo, é utilizada no tratamento de diferentes problemas de ansiedade em crianças e jovens e pode incluir psicoeducação, desenvolvimento de competências e aproximação gradual a situações receadas. [3,4]
A ansiedade infantil desaparece sozinha?
Alguns medos são transitórios e desaparecem à medida que a criança cresce e ganha novas experiências.
Por isso, ter ansiedade em determinada situação não significa necessariamente que exista uma perturbação de ansiedade.
No entanto, dificuldades intensas ou persistentes não devem ser ignoradas na expectativa de que desapareçam sempre espontaneamente.
A identificação e o acompanhamento adequados podem ajudar a reduzir o impacto da ansiedade na vida da criança e da família. [1,5]
Conclusão
Sentir medo e ansiedade faz parte do desenvolvimento infantil.
O objetivo não é criar uma infância sem ansiedade, mas ajudar a criança a aprender que consegue reconhecer aquilo que sente, pedir ajuda e enfrentar progressivamente situações desafiantes.
Quando as preocupações se tornam persistentes, muito intensas ou começam a interferir com a escola, as relações, o sono ou outras atividades importantes, pode ser útil procurar apoio profissional.
Na PsicoMaia, acompanhamos crianças e famílias através de uma abordagem adaptada à idade, à história e às necessidades de cada criança, procurando promover competências emocionais e maior bem-estar familiar.
Referências
- American Academy of Child and Adolescent Psychiatry (AACAP). (2023). Anxiety and Children – Facts for Families.
- National Health Service (NHS). Anxiety disorders in children.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Social anxiety disorder: recognition, assessment and treatment – Treatment for children and young people.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). (2023). Guided self-help digital cognitive behavioural therapy for children and young people with mild to moderate symptoms of anxiety or low mood.
- World Health Organization (WHO). Child and adolescent mental and brain health.